Joias Religiosas: O Segredo

Era quase noite quando as crianças que brincavam no meio velho bosque da cidade voltaram para casa correndo; excitadíssimas com um achado estranho e incomum feito por elas junto a uma pequena caverna. Em suas mãos, traziam um pesado baú de madeira; daqueles bem antigos. Parecia estar bem pesado. Eram necessárias várias crianças para segurá-lo e mesmo tentando correr devido à excitação que sentiam, o peso do objeto tornava aquilo impossível.

Levaram tudo para a casa do “Seu” Paulo. Um antigo morador que vivia na cidade desde que nasceu e que era muito querido por todos. Como ele morava mais próximo do bosque que qualquer outro morador, a escolha foi lógica. Quando as crianças, quase mortas de cansadas, largaram o baú diante de um “Seu” Paulo incrédulo e de queixo caído, nenhuma delas entendeu muito bem quando ele murmurou quase com uma reverência sagrada: “Vocês acharam… mas, como?”

Ante o quase desmaio de “Seu” Paulo, a criançada começou a perguntar o que ele queria dizer com aquele estranho comportamento. “Seu” Paulo ordenou, de forma mais séria que o normal, que um dos garotos corresse até a igreja e chamasse o Padre Aurélio o mais depressa possível. As crianças não paravam de perguntar e pareciam quase a ponto de cair em cima do pobre velho que, sem opção, falou logo do que se tratava.

Esse baú contém um tesouro que muitas pessoas procuraram nessas terras. São as Semijoias jóias religiosas de Sant’Anna. Foram diversas jóias e objetos de adoração das religiosas do antigo convento de Sant’Anna que foi atacado pelos franceses na época da colonização. Com medo de que elas fossem roubadas, as freias esconderam as jóias religiosas e os objetos sagrados mais importantes num grande baú de madeira. Todos achavam que era uma lenda. Já veio por aqui até gente do Vaticano para procurar essas relíquias e ninguém nunca achou nada. Como vocês foram encontrar esse baú meninos?

Os garotos, ainda afoitos, contaram como acharam o baú com as jóias religiosas das freias quase aos gritos. Tropeçavam nas palavras e falavam todos ao mesmo tempo. “Seu” Paulo, muito sério, começou a contar o resto da lenda e dos segredos que os antigos moradores diziam que aquelas jóias religiosas possuíam:

Por aqui, comentava-se que um dos franceses havia achado o baú. Mas não consegui abrir a tranca que as freiras armaram e tentou de tudo para conseguí-lo. Deu tiro, usou pólvora dos canhões, bateu com pedras, paus e martelos; sem nenhum sucesso. Dizem ainda que, em determinado momento, ele ficou furioso e lançou uma maldição contra as freiras e amaldiçoou o nome de Sant’Anna. Nesse exato momento, o baú se abriu como que por mágica. O francês e todos que estavam a sua volta ficaram maravilhados com a variedade e a extrema beleza das jóias religiosas e dos objetos sagrados que estavam dentro do baú. O francês, diziam, ficou particularmente atraído por um enorme cordão de ouro maciço com um medalhão de Sant’Anna bem grande e com diamantes e outras pedras. Os olhos dele se esbugalharam de cobiça e, sem pensar duas vezes, pegou aquela jóia e a colocou em seu próprio pescoço.

Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, mas dizem que nesse exato instante, ouviu-se um trovão no céu e o francês deu um grito enorme caindo morto de forma fulminante no chão. Em seguida, a terra começou a tremer e todas as jóias religiosas e os objetos foram tragados pela terra e, em seu redor, nasceu aquele bosque fechado.

Dizem que esse é o segredo das jóias religiosas de Sant’Anna.